Publicado em 1 de outubro de 2026
A insuficiência cardíaca em cães costuma ser o capítulo final de uma história que começou muito antes, de forma silenciosa. Em muitos animais, o coração já apresenta alterações enquanto eles continuam brincando, caminhando e levando uma vida aparentemente normal.
Por isso, entender as fases da doença cardíaca ajuda o tutor a perceber sinais precoces e a buscar o acompanhamento veterinário no momento certo. Esse foi o tema do Episódio 26 do Pod? Le Pet Santé, com o cardiologista veterinário Dr. Matheus Mancilha, que explicou o estadiamento da doença de forma clara e prática.
Uma das cardiopatias adquiridas mais comuns, e um dos focos da conversa, é a degeneração mixomatosa da válvula mitral, também chamada de doença valvar mitral ou simplesmente doença mitral. Ela evolui de forma progressiva e, em parte dos pacientes, chega à insuficiência cardíaca congestiva (ICC).

O que é insuficiência cardíaca em cães?
A insuficiência cardíaca congestiva não deve ser entendida como uma única doença. Ela é uma condição clínica que pode surgir como consequência de diferentes cardiopatias, quando o coração já não consegue manter a circulação adequada sem que ocorra congestão.
Em outras palavras, a insuficiência cardíaca em cães é uma fase da doença cardíaca, e não o seu ponto de partida. Durante o episódio, foram citados sinais que podem aparecer nos quadros mais avançados:
- tosse persistente;
- cansaço com facilidade;
- menor disposição para caminhadas e brincadeiras;
- respiração ofegante;
- aumento da frequência respiratória, mesmo em repouso;
- aumento do volume abdominal;
- episódios de desmaio (síncope);
- alteração na coloração das mucosas nos casos mais graves.
O diálogo também chama atenção para o edema pulmonar, popularmente chamado de “água no pulmão”, que pode aparecer quando a ICC se instala. Mas o cão não precisa chegar a esse ponto para que uma doença cardíaca seja descoberta. É justamente aí que entra o estadiamento.
Quais são as fases da insuficiência cardíaca em cães?
O estadiamento organiza a doença em estágios, do risco sem alteração até os quadros com sinais clínicos. Essa classificação orienta o médico-veterinário sobre quando apenas acompanhar e quando iniciar o tratamento.
Estágio A: risco, mas sem alteração cardíaca
No estágio A estão os cães com predisposição para desenvolver determinadas cardiopatias, mas que ainda não têm alterações cardíacas identificadas. Raças pequenas e algumas raças específicas têm maior tendência à doença mitral, por exemplo.
Nesse momento, o objetivo é o acompanhamento preventivo. O Dr. Matheus reforça a importância de exames periódicos nesses pacientes, porque uma doença cardíaca pode começar sem provocar nenhum sinal perceptível para o tutor.
Estágio B1: alteração presente, cão sem sintomas
A doença começa a ficar mais evidente no estágio B, que é dividido em B1 e B2. No B1 já pode existir uma alteração valvar e um sopro cardíaco, mas ainda sem o remodelamento que caracteriza uma progressão maior da doença.
O cão geralmente segue assintomático: come, brinca e caminha normalmente, mesmo já tendo uma alteração no coração.
Um ponto importante do podcast: a intensidade do sopro, isoladamente, não determina a gravidade da doença. Ouvir um sopro na consulta é motivo para investigar (veja mais no nosso conteúdo sobre sopros cardíacos em cães), mas o estágio só é definido pela avaliação veterinária e pelos exames complementares.
Estágio B2: o coração começa a mudar
No estágio B2 o cão ainda pode estar sem sintomas, mas os exames já mostram mudanças importantes, como aumento das câmaras cardíacas. O ecocardiograma tem papel central nessa avaliação: são os parâmetros ecocardiográficos que permitem ao cardiologista identificar a passagem do B1 para o B2.
Essa diferenciação muda a conduta. No episódio, o pimobendan (que já detalhamos no guia sobre pimobendan e insuficiência cardíaca congestiva) é citado como medicamento indicado a partir do estágio B2, em pacientes corretamente classificados pelo médico-veterinário. O objetivo é retardar a progressão da cardiopatia antes que surjam os sinais da insuficiência cardíaca em cães.
Quando a doença evolui para insuficiência cardíaca congestiva
Na doença mitral, a válvula deixa de fechar adequadamente. Parte do sangue que deveria seguir adiante retorna, e o coração passa a trabalhar com uma sobrecarga cada vez maior.
Durante algum tempo, o organismo consegue compensar essas alterações. Porém, chega um momento em que esses mecanismos deixam de ser suficientes. Quando há congestão pulmonar, pode surgir o edema pulmonar, com acúmulo de líquido nos pulmões e prejuízo à respiração.
É nessa fase que a falta de ar, a respiração acelerada, o cansaço e a tosse persistente ficam mais evidentes. No diálogo, a tosse de origem cardíaca associada à dificuldade respiratória e ao edema pulmonar é apresentada como sinal de doença mais avançada.
Doença avançada: tratamento com vários medicamentos
Quanto mais avançada a cardiopatia, mais complexo tende a ser o tratamento da insuficiência cardíaca em cães. Um paciente em B2 e assintomático tem uma abordagem bem diferente de outro que já apresenta hipertensão, edema pulmonar ou outros sinais de insuficiência cardíaca congestiva.
O Dr. Matheus explica que, nesses quadros, pode ser necessária uma combinação de medicamentos para controlar a doença cardíaca e as suas consequências. Entre as classes citadas estão o pimobendan, os diuréticos e os anti-hipertensivos, sempre de acordo com as necessidades de cada paciente.
Por isso, medicamentos cardíacos nunca devem ser iniciados, suspensos ou ter a dose alterada sem orientação do médico-veterinário.
Sintomas de insuficiência cardíaca em cães: tosse é sempre do coração?
Não necessariamente. Esse foi outro ponto importante do episódio: embora a tosse apareça em muitos cães cardiopatas, nem toda tosse é cardíaca.
Na insuficiência cardíaca em cães, a tosse costuma vir acompanhada de outros sinais, como cansaço e respiração acelerada. Já problemas respiratórios, como alterações da traqueia e dos brônquios, também provocam tosse, às vezes isolada. Em cães idosos, inclusive, uma doença cardíaca e uma doença respiratória podem existir ao mesmo tempo. Tentar descobrir a causa apenas pelo tipo de tosse pode levar a conclusões erradas, e a avaliação veterinária é indispensável.
Um sinal simples que o tutor pode observar em casa é a frequência respiratória em repouso, contando as respirações do cão enquanto ele dorme tranquilo. Um aumento persistente desse número é motivo para procurar o veterinário.
Quais exames ajudam a determinar a fase da doença?
Para investigar a insuficiência cardíaca em cães, a auscultação durante a consulta costuma ser o primeiro passo e pode revelar um sopro ou alterações no ritmo cardíaco. A partir daí, o médico-veterinário pode solicitar:
- Ecocardiograma: avalia a estrutura e o funcionamento do coração e é peça-chave no estadiamento.
- Eletrocardiograma: avalia a atividade elétrica e o ritmo cardíaco, especialmente quando há suspeita de arritmias.
- Radiografia de tórax: ajuda a avaliar a silhueta cardíaca e, principalmente, as alterações pulmonares.
- Aferição da pressão arterial: complementa a avaliação cardiovascular e identifica alterações que precisam de tratamento.
Em casos de suspeita de arritmias intermitentes, também pode ser indicada a monitorização por períodos mais longos, como o Holter.
Medicamentos manipulados no tratamento de cães cardiopatas
O tratamento da insuficiência cardíaca em cães costuma ser contínuo e, muitas vezes, envolve mais de um medicamento. Cães pequenos, que são justamente os mais afetados pela doença mitral, frequentemente precisam de concentrações que não existem nas apresentações comerciais. A manipulação veterinária permite ajustar a dose exata prescrita, em cápsulas, e facilita a rotina do tutor.
Na Le Pet Santé, médicos-veterinários encontram as principais substâncias usadas na cardiologia, sempre mediante prescrição:
- Pimobendan (inodilatador): pimobendam 1 mg, pimobendam 1,25 mg, pimobendam 2,5 mg e pimobendam 5 mg.
- Furosemida (diurético usado no controle da congestão e do edema pulmonar): furosemida 10 mg e furosemida 20 mg.
- Espironolactona (diurético poupador de potássio): espironolactona 5 mg.
- Enalapril (inibidor da ECA, com ação vasodilatadora e anti-hipertensiva): enalapril 5 mg.
- Sildenafila (indicada em casos de hipertensão pulmonar): sildenafila 5 mg.
A escolha de cada medicamento, a dose e a combinação dependem do estágio da doença e da avaliação do cardiologista. Nenhum deles deve ser usado sem prescrição.
Descobrir cedo muda a história da doença
Uma das principais mensagens da conversa é que ter uma doença cardíaca não significa que o cão já esteja com insuficiência cardíaca congestiva. Existe uma progressão, e ela pode levar anos. De forma simplificada:
- Estágio A: predisposição, sem alteração cardíaca detectada.
- Estágio B1: alteração presente, sem remodelamento importante e sem sintomas.
- Estágio B2: alterações cardíacas mais significativas, mas o cão ainda pode estar assintomático.
- Fases avançadas: surgem os sinais clínicos e as consequências da insuficiência cardíaca em cães, que exigem tratamento e acompanhamento mais intensivos.
Quanto antes a cardiopatia é identificada e classificada, mais tempo existe para retardar a chegada da insuficiência cardíaca em cães, e mais cedo o médico-veterinário define a estratégia de acompanhamento. Na prática, isso significa mais tempo de qualidade de vida para o paciente.
Perguntas frequentes sobre insuficiência cardíaca em cães
Quais são as fases da insuficiência cardíaca em cães?
O estadiamento vai do estágio A (risco sem alteração) ao B1 e B2 (alteração presente, ainda sem sintomas) e às fases avançadas, em que surgem os sinais da insuficiência cardíaca em cães.
O que significa estágio B2 em cães?
No B2 o cão ainda pode estar assintomático, mas o ecocardiograma já mostra alterações cardíacas mais significativas. Essa classificação é importante porque costuma ser o momento de iniciar o pimobendan.
Cachorro com problema no coração sempre tosse?
Não. Além disso, nem toda tosse é cardíaca: problemas de traqueia e brônquios também causam tosse e podem coexistir com a cardiopatia.
O que é edema pulmonar em cães?
É o acúmulo de líquido nos pulmões. No contexto da insuficiência cardíaca em cães, compromete a respiração e indica doença mais avançada, exigindo atendimento veterinário.
Insuficiência cardíaca em cães tem cura?
Na maioria dos casos, a doença é crônica e progressiva, mas pode ser controlada. Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento, muitos cães vivem bem por bastante tempo.
Assista ao episódio completo
Para ouvir toda a explicação do Dr. Matheus Mancilha sobre os estágios da doença cardíaca, os exames e o tratamento, assista ao Episódio 26 do Pod? Le Pet Santé no YouTube. Confira também os outros episódios na nossa categoria Podcast e o episódio anterior, sobre manipulação de produtos estéreis.
Seu cão apresenta tosse, cansaço ou respiração acelerada? Esses podem ser sinais de insuficiência cardíaca em cães. Procure um médico-veterinário para avaliação. E, se você é veterinário, conte com a Le Pet Santé para manipular a prescrição na concentração exata de que o seu paciente precisa.


