Publicado em 11 de agosto de 2026
A Medicina Veterinária vai muito além de consultas, exames, cirurgias e tratamentos. Em determinadas comunidades, o médico-veterinário assume também um papel de educador, agente de saúde pública e promotor de mudanças na relação entre as pessoas e os animais. Entender o papel do médico-veterinário na saúde pública é reconhecer que cuidar dos animais é, muitas vezes, cuidar de toda uma comunidade.
Essa visão ficou evidente na conversa com a Dra. Jaqueline Alves, convidada do episódio 27 do Pod? Le Pet!, o podcast da Le Pet Santé. Veterinária, empreendedora, voluntária e responsável por diferentes projetos, Jaqueline compartilhou experiências que mostram como a profissão pode impactar não apenas a saúde dos animais, mas também a das pessoas ao redor deles.
O papel do médico-veterinário na saúde pública e na comunidade
A Dra. Jaqueline é responsável pela Vet Saúde, clínica veterinária localizada em Guarulhos, em uma região próxima ao Parque Estadual da Cantareira. Instalada em uma área arborizada, com características quase rurais, a clínica atua há anos em uma comunidade com a qual a veterinária mantém uma forte ligação pessoal.
Mais do que prestar atendimento particular, a proposta construída ao longo dos anos foi estabelecer uma relação próxima com os moradores. Em uma região que antes não contava com uma estrutura veterinária semelhante, parte do trabalho consiste justamente em mostrar aos tutores a importância da vacinação, da alimentação adequada, do acompanhamento veterinário e da prevenção de doenças.
Para Jaqueline, uma das maiores recompensas é perceber a transformação na maneira como as pessoas passam a enxergar seus animais depois do primeiro contato com a Medicina Veterinária.
Medicina veterinária e saúde pública
Quando cuidar dos animais também significa cuidar das pessoas, fica claro por que o médico-veterinário ocupa uma posição estratégica na saúde pública. A localização da clínica, próxima a uma área de mata, traz um desafio adicional: a ocorrência frequente de zoonoses, doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos.
Nesses casos, a atuação veterinária não termina no diagnóstico e no tratamento do animal. Quando existe risco para a família, especialmente crianças e idosos, a equipe procura orientar os responsáveis e, quando necessário, encaminhá-los para atendimento médico. A vacinação, o controle populacional, o diagnóstico precoce e a orientação dos tutores deixam de ser medidas ligadas apenas ao bem-estar animal e passam a representar ferramentas importantes de saúde pública.
Zoonoses e a importância da prevenção
Durante a entrevista, foram mencionados casos de leptospirose e, principalmente, de esporotricose, duas zoonoses que exigem atenção redobrada em regiões próximas a áreas verdes e com grande população de animais.
Esporotricose e o cuidado com animais e pessoas
A esporotricose é um exemplo claro dessa realidade. Segundo o relato apresentado no podcast, a clínica recebe casos com grande frequência. Além de tratar os gatos acometidos, a equipe também auxilia tutores que têm dificuldade para administrar a medicação, situação comum entre pessoas idosas, que muitas vezes precisam de apoio para seguir o tratamento até o fim. Esse acompanhamento próximo é fundamental para evitar tanto o abandono do tratamento quanto o risco de transmissão para as pessoas da casa.
Leptospirose e orientação das famílias
A leptospirose é outra zoonose que reforça a importância da prevenção e da orientação. Nessas ocasiões, o trabalho do veterinário passa por explicar às famílias as formas de contágio, os cuidados com o ambiente e a necessidade de procurar atendimento médico diante de qualquer sinal de alerta. É a educação em saúde acontecendo dentro do consultório.
O conceito de Saúde Única na Medicina Veterinária
Toda essa integração evidencia o conceito de Saúde Única (One Health): a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental estão profundamente conectadas. Não é possível cuidar bem de uma delas ignorando as outras.
Na prática, isso significa que uma campanha de vacinação, o controle de zoonoses ou a orientação de um tutor têm efeitos que ultrapassam o animal atendido. Protegem a família, a vizinhança e o meio ambiente. Por estar próxima a uma área de preservação, a clínica da Dra. Jaqueline também acaba funcionando como referência para moradores que encontram animais silvestres feridos ou filhotes em situação de vulnerabilidade. Gambás e outros animais chegam para um primeiro atendimento e depois são encaminhados aos órgãos responsáveis. A rotina inclui ainda animais não convencionais (coelhos, pequenos roedores, porquinhos-da-índia, jabutis e tigres-d’água), o que torna o dia a dia bem diferente de uma clínica dedicada apenas a cães e gatos.
Educação ambiental e guarda responsável
Um dos aspectos mais marcantes do projeto é o trabalho de educação ambiental com crianças e adolescentes. Escolas da região já participaram de atividades dentro do santuário que funciona ao lado da clínica: os estudantes ajudam em projetos, conhecem os animais e aprendem conceitos ligados à guarda responsável.
A ideia é simples e poderosa: trabalhar hoje com quem será o tutor de amanhã. As crianças aprendem que assumir a responsabilidade por um animal envolve alimentação adequada, água, vacinação, cuidados veterinários, respeito ao comportamento natural da espécie e controle populacional. Para Jaqueline, ensinar uma criança pode gerar resultados percebidos muitos anos depois, quando ela se tornar adulta e responsável pelos próprios animais.
A transformação, porém, não acontece só com os pequenos. Muitos adultos chegam à clínica sem nunca terem levado um animal ao veterinário e se surpreendem ao descobrir que cães e gatos também fazem exames de sangue, podem desenvolver doenças semelhantes às humanas e precisam de acompanhamento preventivo. Depois de vivenciar um tratamento e observar a recuperação do animal, muitos tutores mudam completamente de comportamento: passam a controlar as datas das vacinas, buscam atendimento preventivo e compreendem melhor o papel daquele animal dentro da família.
A importância da adoção responsável
Ao lado da clínica funciona um santuário dedicado à proteção animal. Na época da entrevista, o local mantinha cerca de 65 cães e 40 gatos, além de outros animais resgatados que vivem no sítio onde Jaqueline mora. O trabalho envolve resgate, recuperação, vacinação, manejo, alimentação e, quando possível, adoção.
O objetivo, no entanto, não é encontrar rapidamente uma casa para cada animal: é encontrar a família certa. O processo começa com uma avaliação dos interessados, buscando compreender as condições do futuro tutor e, principalmente, sua disposição para um compromisso de longo prazo. Questões como mudanças de residência, nascimento de filhos, separações familiares, segurança do ambiente e experiências anteriores com animais são consideradas.
O motivo desse cuidado é claro: uma adoção malsucedida pode representar um grande impacto emocional e comportamental para um animal que já passou por abandono. A devolução, depois de semanas, meses ou até anos, exige uma nova e dolorosa readaptação ao abrigo. Além disso, nem todos os animais resgatados têm perfil para adoção: alguns chegam extremamente desconfiados e, mesmo recuperados fisicamente, seguem com dificuldades importantes de socialização. Nesses casos, permanecem definitivamente no santuário.
Proteção animal e trabalho voluntário
Manter dezenas de animais exige estrutura. Somente entre os cães, o consumo relatado no podcast chega a aproximadamente 27 kg de ração por dia. Por isso, doações, voluntários, rifas, bazares e outras iniciativas são fundamentais para a continuidade do projeto.
Veterinários e estudantes podem contribuir: em campanhas de vacinação, por exemplo, a participação de outros profissionais ajuda a atender um número grande de animais. Mas o voluntariado não precisa se restringir à Medicina Veterinária: profissionais de comunicação, marketing, design, administração, captação de recursos e comportamento animal também têm muito a oferecer. Essa relação com o voluntariado acompanha Jaqueline desde cedo: ela começou aos 12 anos, em um projeto de educação ambiental ligado ao Parque Estadual da Cantareira, experiência que ajudou a moldar a importância que hoje atribui ao envolvimento das crianças.
Empreendedorismo e gestão na Medicina Veterinária
Uma das reflexões mais relevantes da conversa foi sobre a necessidade de profissionalizar a gestão dos projetos sociais. Boa vontade é fundamental, mas não sustenta sozinha uma organização que cuida diariamente de dezenas de animais.
Jaqueline relatou que precisou desenvolver conhecimentos de empreendedorismo e gestão para organizar melhor a clínica: entre as formações mencionadas estão estudos de marketing para clínicas veterinárias e um MBA em gestão hospitalar. O objetivo foi separar com clareza a operação da clínica particular da atividade social do santuário. Este passou a funcionar formalmente como associação com CNPJ, aumentando as responsabilidades administrativas e contábeis, mas também abrindo novas possibilidades de organização e de captação de recursos, como parcerias e doações institucionais que seriam mais difíceis para um protetor independente.
Medicina Veterinária além do consultório
A rotina da Dra. Jaqueline guarda ainda outra particularidade: além da clínica e do trabalho no terceiro setor, ela mantém uma escola de dança. E, quando perguntada sobre qual paixão surgiu primeiro, a resposta foi a dança. A entrevista revela, portanto, uma profissional cuja trajetória não cabe apenas dentro de um consultório: clínica, gestão, proteção animal, educação ambiental, voluntariado e dança fazem parte de uma mesma história.
Talvez a principal mensagem deixada pela conversa seja que o trabalho do médico-veterinário pode produzir mudanças muito maiores do que as percebidas durante uma consulta. Quando um tutor aprende a vacinar seu animal, uma criança compreende o significado da guarda responsável, uma família recebe orientação sobre uma zoonose ou um animal abandonado ganha uma nova oportunidade, existe um impacto que ultrapassa os limites da clínica. Mais do que tratar doenças, o veterinário ajuda a construir uma sociedade que compreende melhor os animais, respeita suas necessidades e reconhece que cuidar deles é, muitas vezes, cuidar das pessoas.

Perguntas frequentes
Qual é o papel do médico-veterinário na saúde pública?
Além de tratar os animais, o médico-veterinário atua na prevenção e no controle de zoonoses, na vacinação, no diagnóstico precoce e na orientação dos tutores. Essas ações protegem também as pessoas e o meio ambiente, conectando saúde animal, humana e ambiental sob o conceito de Saúde Única.
O que é Saúde Única (One Health)?
Saúde Única é a abordagem que reconhece que a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental estão interligadas. Cuidar de uma delas exige cuidar das outras, por isso o trabalho veterinário tem reflexo direto na saúde da comunidade.
Como funciona a adoção responsável de animais?
A adoção responsável avalia as condições e o compromisso do futuro tutor antes de encaminhar o animal, considerando fatores como ambiente, rotina e experiências anteriores. O objetivo não é apenas encontrar uma casa, mas a família certa, evitando devoluções e novos traumas ao animal.
Assista ao episódio completo
Quer se aprofundar nessa conversa? Assista ao episódio 27 do Pod? Le Pet!, com a Dra. Jaqueline Alves, e conheça de perto como a Medicina Veterinária pode transformar animais, pessoas e comunidades inteiras. Acompanhe também o reel de divulgação no Instagram confira os outros episódios do Pod? Le Pet!, como o episódio 26, sobre doenças cardíacas em cães e gatos, e siga a Le Pet Santé para não perder as próximas conversas.
Conteúdo baseado na conversa com a Dra. Jaqueline Alves no episódio 27 do Pod? Le Pet!, da Le Pet Santé.


