A medicina de aves pequenas ainda é um campo pouco explorado no Brasil — especialmente quando falamos de passeriformes, os populares “passarinhos”. No episódio do podcast Le Pet Santé com o Dr. Guilherme Marieto, especialista na área, são discutidos temas essenciais como manejo, nutrição, doenças mais comuns e os desafios enfrentados por criadores e veterinários.
Este conteúdo reúne os principais insights do episódio, servindo como um guia introdutório para quem deseja entender melhor o universo da criação e cuidado com aves.
O que são passeriformes e por que há tão pouca informação?
Passeriformes são aves pequenas, muito comuns em criações domésticas e competições, como canários e outros pássaros ornamentais. Apesar da popularidade, existe uma grande carência de literatura técnica sobre essas espécies.
Segundo o Dr. Guilherme Marieto, a maior parte dos materiais disponíveis na medicina veterinária é voltada para:
- Avicultura industrial (frango, peru, codorna)
- Aves exóticas maiores (papagaios, periquitos)
Isso faz com que criadores e profissionais precisem recorrer a informações fragmentadas, muitas vezes baseadas em tentativa e erro ou troca de experiências em grupos.
O desafio na formação de veterinários
Um dos pontos centrais do episódio é a falta de preparo técnico específico para aves pequenas. Muitos profissionais:
- Não têm contato prático com passeriformes durante a formação
- Aprendem com base em espécies diferentes
- Enfrentam dificuldade para diagnosticar e tratar corretamente
Além disso, ainda existe um estigma no mercado: muitos criadores acreditam que levar o animal ao veterinário é sinal de que ele não sobreviverá, o que dificulta ainda mais o acesso ao tratamento adequado.
Principais doenças em passeriformes
O episódio destaca algumas das doenças mais comuns que afetam aves, tanto em criações quanto em ambiente doméstico:
1. Coccidiose
- Doença parasitária comum
- Impacta diretamente o crescimento e desenvolvimento das aves
2. Macrorabdiose
- Infecção fúngica
- Afeta principalmente o sistema digestivo
- Pode causar alta mortalidade em filhotes
3. Micoplasmose
- Doença bacteriana altamente transmissível
- Pode ser transmitida até por contato indireto (roupas, ambiente, outras aves)
4. Infestações por ácaros
- Podem afetar pele, penas e sistema respiratório
- Ainda muito frequentes, apesar de fácil controle
5. Doenças embrionárias
- Alta taxa de mortalidade ainda no ovo
- Geralmente relacionadas a fatores ambientais como temperatura e umidade
Nutrição: um dos maiores erros na criação
Um dos pontos mais importantes discutidos é a diferença entre alimentar e nutrir.
Muitos criadores ainda baseiam a dieta das aves apenas em sementes, o que pode gerar deficiências nutricionais graves. Hoje, o recomendado é:
- Uso de ração balanceada como base alimentar
- Complementação com sementes para estímulo comportamental
- Inclusão de frutas e fontes proteicas quando necessário
O problema, segundo o especialista, não é falta de acesso à informação ou produtos, mas sim:
- Economia inadequada (optar pelo mais barato)
- Desinformação
- Resistência à mudança
A importância do ambiente na criação
O ambiente é um dos fatores mais críticos para o sucesso na criação de aves. Entre os principais pontos:
- Controle de temperatura e umidade
- Ventilação adequada
- Higiene do local
- Redução de estresse
Problemas climáticos, como calor excessivo e baixa umidade, são grandes responsáveis pela mortalidade embrionária. Muitos criadores ainda não investem em climatização, o que compromete todo o ciclo reprodutivo.
Reprodução e mortalidade de filhotes
A reprodução de passeriformes exige atenção constante. Entre os principais desafios:
- Morte embrionária por condições ambientais inadequadas
- Falta de suporte nos primeiros dias de vida
- Interferência excessiva ou ausência de manejo
Criadores mais experientes costumam:
- Monitorar o desenvolvimento dos ovos
- Oferecer suporte alimentar aos filhotes (mesmo com os pais presentes)
- Ajustar o ambiente conforme a necessidade
O mito do canto: o pássaro não canta por felicidade
Um ponto interessante abordado no episódio é o comportamento vocal das aves.
Ao contrário do senso comum, o canto não está ligado à felicidade. Ele ocorre principalmente por dois motivos:
- Reprodução
- Marcação de território
Outros fatores que influenciam o canto:
- Sexo da ave (na maioria das espécies, apenas machos cantam)
- Ambiente e estímulos
- Período do ano
Uma ave que não canta não necessariamente está doente — mas uma ave doente, geralmente, não vocaliza.
O mercado de criação: um universo pouco conhecido
O episódio também revela um cenário pouco explorado:
- Criações altamente profissionais
- Aves de alto valor comercial
- Competições nacionais e internacionais
Mesmo com alto investimento em animais, muitos criadores ainda resistem a investir em manejo técnico e acompanhamento veterinário — o que gera perdas significativas.
Conclusão
A criação e o cuidado com passeriformes exigem muito mais do que apenas alimentação básica e abrigo. É um processo que envolve conhecimento técnico, observação constante e investimento em manejo adequado.
O trabalho do Dr. Guilherme Marieto contribui diretamente para preencher uma lacuna histórica na medicina veterinária, trazendo informações práticas e baseadas na realidade do campo.
Para criadores, veterinários e interessados no tema, este episódio é uma oportunidade valiosa de aprendizado e atualização.
Assista ao episódio completo:
https://www.youtube.com/watch?v=R1Zu9ABmXdI


