Publicado em 21 de setembro de 2026
Problemas neurológicos em cães e gatos podem aparecer de maneiras muito diferentes. Uma convulsão evidente, um animal que começa a andar cambaleando, movimentos repetitivos da face, alterações nos olhos, dor na coluna ou até uma mudança repentina de comportamento podem estar relacionados ao sistema nervoso. É disso que trata a neurologia veterinária.
No episódio 34 do Pod? Le Pet!, a Dra. Fernanda conversou com a gente sobre neurologia veterinária, mostrando como essa especialidade está relacionada não apenas ao cérebro, mas também à medula espinhal e aos nervos periféricos.
Neste artigo, reunimos os principais assuntos discutidos no episódio para ajudar tutores a compreender alguns dos sinais neurológicos que merecem atenção e reforçar a importância da avaliação do médico-veterinário.
Em resumo: cães e gatos podem ter AVC e convulsões. Alterações repentinas de equilíbrio, movimentos involuntários dos olhos, dificuldade para caminhar, convulsões e mudanças neurológicas súbitas são sinais que precisam de avaliação veterinária. As causas podem ser diversas e o diagnóstico depende da avaliação individual do animal.
O que a neurologia veterinária trata?
O sistema nervoso pode ser dividido, de maneira simplificada, em sistema nervoso central e periférico. O sistema nervoso central envolve estruturas como o encéfalo e a medula espinhal. Já o sistema nervoso periférico inclui os nervos que fazem a comunicação entre o sistema nervoso central e diferentes regiões do organismo.
Por isso, a neurologia veterinária pode estar envolvida em situações como:
- convulsões e epilepsia;
- alterações de equilíbrio;
- doenças do cérebro e do cerebelo;
- problemas de coluna e compressões da medula;
- alterações de nervos periféricos;
- dores de origem neuropática;
- alterações neurológicas secundárias a outras doenças.
Um dos grandes desafios é justamente identificar onde está a alteração e descobrir qual doença está provocando os sinais apresentados pelo animal.

Convulsão em cães e gatos: por que acontece?
Um dos pontos mais importantes da conversa é entender que convulsão é um sinal clínico, e não necessariamente uma doença isolada. Isso significa que, quando um cão ou gato apresenta uma convulsão, é importante investigar o que está por trás daquele episódio.
Entre as possibilidades discutidas estão doenças infecciosas, alterações congênitas como hidrocefalia, intoxicações, alterações metabólicas, hipoglicemia, eventos vasculares e epilepsia idiopática. Portanto, simplesmente controlar a convulsão não significa que a causa do problema tenha sido identificada. Já falamos sobre isso no artigo Meu cão teve convulsão, e agora?.
Toda convulsão é igual?
Não. Quando pensamos em uma convulsão, é comum imaginar o animal caído, com movimentos intensos das patas, salivação e perda de consciência. Esse quadro realmente pode acontecer, mas existem manifestações muito mais discretas. De forma geral, as crises podem ser generalizadas ou focais.
Convulsão generalizada: pode envolver grande parte do corpo. O animal pode cair, apresentar rigidez, movimentos involuntários, salivação e alterações de consciência. Em alguns episódios também podem ocorrer micção ou defecação involuntárias.
Convulsão focal: pode ser muito mais discreta. Movimentos repetitivos da face, piscadas incomuns, movimentação de uma orelha ou pequenos tremores localizados podem fazer parte da apresentação de algumas crises focais. Isso ajuda a explicar por que determinadas alterações passam despercebidas durante muito tempo.
O que fazer quando o animal está convulsionando?
Assistir a uma convulsão pode ser extremamente assustador para o tutor. Porém, algumas atitudes são importantes para reduzir os riscos durante o episódio. Uma das principais orientações discutidas no podcast é: não coloque a mão dentro da boca do animal e não tente segurar a língua dele. Durante uma crise, os movimentos são involuntários e existe risco de mordida.
O ideal é proteger o animal contra traumas, afastando objetos que possam machucá-lo e evitando que ele bata a cabeça. Outro recurso muito útil é gravar o episódio, quando isso puder ser feito com segurança. O vídeo ajuda o médico-veterinário a compreender como ocorreu a crise, quais movimentos estavam presentes e quanto tempo ela realmente durou.
Além disso, tente cronometrar o episódio. Em uma situação emocionalmente intensa, poucos segundos podem parecer vários minutos. Após a convulsão, o comportamento também pode permanecer alterado durante algum tempo: o animal pode ficar desorientado, assustado ou diferente do habitual. A avaliação veterinária é fundamental para determinar a necessidade de investigação e tratamento.
Quando várias convulsões se tornam uma emergência?
A frequência das crises é uma informação extremamente importante. Quando o animal apresenta episódios repetidos em um intervalo curto ou diversas crises ao longo do mesmo período, a situação exige atendimento veterinário imediato.
O tutor deve informar ao profissional quando ocorreu a primeira crise, quanto tempo durou, quantas crises aconteceram, como eram os movimentos e como o animal se comportou antes e depois. Sempre que possível, leve os vídeos registrados.
Epilepsia idiopática: como é feito o diagnóstico?
Antes de classificar um paciente como portador de epilepsia idiopática, é necessário investigar outras possíveis causas para as convulsões. Por isso, a epilepsia idiopática é discutida como um diagnóstico de exclusão.
Dependendo do paciente, da idade, do histórico e dos sinais clínicos, o médico-veterinário poderá solicitar diferentes exames para descartar doenças metabólicas, infecciosas, estruturais ou outras alterações capazes de provocar crises. Somente depois dessa investigação é possível estabelecer a melhor estratégia para aquele animal.
O tratamento consegue eliminar todas as convulsões?
Nem sempre. O objetivo do tratamento depende da causa e da condição de cada paciente. Em situações como uma crise associada a hipoglicemia ou intoxicação, tratar a causa pode impedir novos episódios. Em outras doenças, o paciente pode precisar de acompanhamento e medicamentos anticonvulsivantes por períodos prolongados.
Há ainda pacientes nos quais o tratamento não elimina completamente as crises, mas consegue reduzir sua intensidade e aumentar o intervalo entre os episódios. Por isso, o acompanhamento veterinário e os ajustes individualizados são tão importantes. Nunca altere doses ou interrompa medicamentos anticonvulsivantes sem orientação profissional.
Estresse pode funcionar como gatilho para convulsões?
Em alguns pacientes predispostos, determinados estímulos podem funcionar como gatilhos. Estresse, barulhos intensos, fogos, trovões e até estímulos luminosos foram discutidos como exemplos de situações associadas ao aparecimento de crises em determinados animais.
Isso não significa que todo cão ou gato submetido a esses estímulos terá uma convulsão. O contexto clínico de cada paciente precisa ser considerado. Conhecer possíveis gatilhos pode, porém, ajudar o tutor e o médico-veterinário no acompanhamento do animal.
Cães e gatos podem ter AVC?
Sim. Alterações vasculares também podem afetar o encéfalo dos animais, e os sinais dependem principalmente da região atingida. Quando áreas relacionadas ao equilíbrio são afetadas, por exemplo, o animal pode apresentar dificuldade para permanecer em pé, caminhar de maneira descoordenada ou cair para um dos lados. Em outras situações podem surgir manifestações diferentes, inclusive convulsões.
Uma característica importante é que o quadro pode começar de forma muito rápida: o animal pode parecer normal e, pouco tempo depois, apresentar uma alteração neurológica evidente.
Quais são os sinais de alerta?
Entre as manifestações discutidas durante o episódio estão desequilíbrio repentino, andar cambaleante, quedas para um dos lados, alteração súbita do comportamento, movimentos involuntários dos olhos (o chamado nistagmo), desmaios, convulsões e dificuldade repentina para permanecer em pé ou caminhar. Quando um sinal neurológico aparece de forma repentina, o animal deve ser avaliado por um médico-veterinário.
Desequilíbrio nem sempre significa AVC
O tutor não consegue determinar em casa se o quadro é realmente um evento vascular ou outra doença neurológica. Um animal andando como se estivesse “bêbado”, com a cabeça inclinada ou apresentando movimentos anormais dos olhos causa grande preocupação, mas AVC não é a única possibilidade.
Alterações vestibulares, doenças do ouvido, intoxicações, doenças metabólicas e diferentes problemas neurológicos podem produzir sinais semelhantes. Por isso, o diagnóstico não deve ser feito apenas observando os sintomas, e uma alteração neurológica súbita sempre precisa de avaliação veterinária rápida.
Otite também pode provocar sinais neurológicos?
Dependendo da localização e da evolução da doença, sim. Uma otite inicialmente localizada na região externa do ouvido pode evoluir e atingir estruturas mais profundas. Quando há comprometimento de estruturas relacionadas ao equilíbrio, o animal pode apresentar cabeça inclinada, dificuldade para caminhar, desequilíbrio, quedas e movimentos involuntários dos olhos.
Por isso, otites não devem ser negligenciadas. Outro ponto importante é evitar colocar medicamentos ou soluções no ouvido por conta própria, principalmente quando existe a possibilidade de comprometimento do tímpano ou de estruturas mais profundas. O tratamento depende da localização e da causa da otite.
Problemas de coluna e dor neuropática
Muitas alterações da coluna envolvem medula espinhal e nervos e, portanto, fazem parte da neurologia veterinária. Doenças de discos intervertebrais, compressões, alterações cervicais e problemas envolvendo nervos periféricos podem provocar dor, alterações de movimento e mudanças de comportamento.
Em alguns casos, uma manifestação aparentemente distante da coluna pode ter origem neurológica. Durante o episódio, por exemplo, foi discutido o caso de uma cadela que apresentava lambedura persistente das patas. Após investigação, levantou-se a relação entre a manifestação e uma alteração cervical capaz de produzir sensações anormais nas extremidades. Esse exemplo reforça a importância de investigar o paciente como um todo.
O que é dor neuropática?
Dor neuropática é aquela relacionada a alterações ou lesões envolvendo estruturas do sistema nervoso. Uma comparação utilizada durante a conversa é a dor associada ao nervo ciático em humanos: o paciente pode sentir dor, formigamento, queimação ou sensações anormais relacionadas ao nervo comprometido.
Como os animais não conseguem descrever essas sensações, o diagnóstico depende da avaliação clínica e da observação do comportamento. Mudanças na forma de andar, dificuldade para levantar, resistência ao toque, lambedura excessiva de determinadas regiões e alterações de postura podem ser pistas que precisam ser investigadas. Veja também o artigo Como saber se o animal está com dor?.
Pregabalina e gabapentina na Medicina Veterinária
Durante o episódio também foram discutidos medicamentos utilizados no manejo de determinados quadros de dor neuropática, como pregabalina e gabapentina. Esses medicamentos possuem mecanismos diferentes dos anti-inflamatórios tradicionais e podem ser utilizados pelo médico-veterinário quando há indicação específica.
Isso também explica por que um tutor pode receber uma prescrição e estranhar as informações encontradas sobre determinado medicamento: um mesmo princípio ativo pode possuir diferentes aplicações clínicas. Pesquisar isoladamente o nome de um medicamento na internet não substitui a explicação do profissional que avaliou o animal. Medicamentos de uso controlado ou destinados ao sistema nervoso devem ser utilizados somente mediante prescrição e acompanhamento do médico-veterinário.
Interações medicamentosas também precisam ser consideradas
Pacientes neurológicos, especialmente aqueles em tratamentos prolongados, podem utilizar mais de um medicamento. Por isso, o médico-veterinário precisa conhecer todos os produtos que o animal está recebendo. Não acrescente analgésicos, anti-inflamatórios, medicamentos humanos ou qualquer outro produto ao tratamento por conta própria. Além do risco de intoxicação, podem existir interações medicamentosas e particularidades importantes entre cães, gatos e seres humanos.
Idade, peso e estilo de vida também fazem diferença
A idade do paciente é uma informação importante na investigação neurológica. Algumas doenças são mais esperadas em animais jovens, enquanto alterações degenerativas e determinados problemas vasculares ou de coluna podem ser mais frequentes em pacientes idosos.
O peso também merece atenção. Em animais predispostos a doenças da coluna, o excesso de peso pode aumentar a sobrecarga sobre estruturas já comprometidas. Manter o animal em condição corporal adequada, portanto, não é apenas uma questão estética: pode fazer parte da prevenção e do controle de diferentes problemas de saúde.
Quando procurar um neurologista veterinário?
O clínico-geral possui papel fundamental no primeiro atendimento e pode encaminhar o paciente quando identificar a necessidade de avaliação especializada em neurologia veterinária. Entre as situações que podem justificar essa investigação estão convulsões, alterações de equilíbrio, movimentos involuntários dos olhos, dificuldade para caminhar, fraqueza, alterações importantes de coordenação, dores persistentes relacionadas à coluna e mudanças neurológicas repentinas. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Observe, registre e procure orientação veterinária
Uma das principais mensagens da conversa é a importância da observação. O tutor convive diariamente com o animal e frequentemente é a primeira pessoa a perceber que alguma coisa mudou. Um movimento facial repetitivo, uma alteração de equilíbrio, uma dificuldade inesperada para levantar ou uma mudança repentina de comportamento podem fornecer informações valiosas ao médico-veterinário.
Quando perceber algo diferente: observe, filme quando for seguro, anote quando começou e procure orientação profissional. Na neurologia veterinária, detalhes fazem diferença.
Perguntas frequentes sobre neurologia veterinária
Cães podem ter AVC?
Sim. Alterações vasculares podem afetar o encéfalo dos cães e provocar sinais neurológicos que variam conforme a região atingida.
O que fazer quando um cachorro está convulsionando?
Proteja o animal contra traumas, afaste objetos próximos e não coloque a mão dentro da boca. Quando for seguro, registre o episódio em vídeo, cronometre a crise e procure orientação veterinária.
Toda convulsão significa epilepsia?
Não. A convulsão é um sinal clínico que pode estar associado a diferentes condições. A epilepsia idiopática é considerada apenas após a investigação de outras possíveis causas.
Por que o cachorro pode andar como se estivesse bêbado?
Alterações de equilíbrio podem estar relacionadas a diferentes problemas neurológicos ou vestibulares, inclusive otites profundas. A causa precisa ser determinada pelo médico-veterinário.
Quando procurar um neurologista veterinário?
Convulsões recorrentes, alterações importantes de equilíbrio, dificuldades de locomoção, problemas relacionados à coluna e outros sinais neurológicos podem justificar avaliação especializada.
Assista ao episódio completo
Quer saber mais sobre neurologia veterinária? Assista ao episódio 34 do Pod? Le Pet! com a Dra. Fernanda no YouTube da Le Pet Santé. E, se você ainda não viu, confira também o episódio anterior sobre doenças oculares em cães.
O Pod? Le Pet! nasceu justamente para ampliar esse diálogo, aproximando profissionais, médicos-veterinários e tutores por meio de informação sobre saúde animal. Para a Le Pet Santé, compartilhar conhecimento também é uma forma de cuidado. Acompanhe os demais episódios na categoria Podcast do blog.
Importante: este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento realizado por um médico-veterinário.


